Recife, 07 de novembro de 2009
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ECONOMIA

Depois do corte da cana, o corte de gente

Publicado em, 29/10/2007 às 17:34. Visualizada 712 vezes

Falta de opções pode trazer futuro amargo a agricultores
Marcos Michael / JC Imagem

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Marcus Andrey - RECIFE - PE
Jornalista
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A atividade econômica que durante quase cinco séculos foi responsável pelo apogeu pernambucano ensaia uma retomada dos tempos de glória, com a intenção do Governo Federal em incentivar a produção de biocombustível.

Curiosamente, a cana-de-açúcar que sempre enriqueceu gerações, depende, ainda, do mesmo sistema de colheita 'manual', valendo-se de até 100 mil trabalhadores rurais - chamados cortadores - que enfrentam uma jornada média de 10 horas por dia, durante o período da safra (que é de apenas seis meses por ano).

Apesar de a produção da cana ter declinado no Estado, com fechamento de 20 unidades produtivas na última década, ainda hoje o setor sucroalcooleiro responde por 10% do PIB pernambucano.

A situação de desemprego sazonal na Zona da Mata durante os meses da entressafra - de março a setembro - é um problema social que tende a se agravar quando da substituição do homem pela máquina. Um sonho dos produtores que, em São Paulo, já tem data marcada para acontecer, em 2011.

Em Pernambuco, estamos diante de um horizonte ainda estável do ponto de vista da empregabilidade. Porém, não temos políticas públicas que direcionem esse trabalhador para outra atividade econômica nem durante os seis meses da entressafra, e muito menos para quando chegar a hora de mecanizar totalmente a colheita.

Quando não há cana para cortar, o desemprego é generalizado na Zona da Mata. Isso gera o desalento, uma acomodação da mão-de-obra canavieira que não sabe fazer outra coisa para garantir o sustento da família. 

Como resultado, a renda média mensal de R$ 434 adquirida no período da safra precisa ser racionada para a sustentabilidade familiar durante o período de desemprego, o que gera uma renda mensal média de apenas R$ 217 calculada para um ano.

A contrapartida do Governo estimula o desalento, já que 45% das famílias dos canavieiros recebem algum tipo de benefício social como complemento de renda. Esses programas assistencialistas atingem indiscriminadamente os ocupados e os desocupados na entressafra, dissuadindo qualquer chance de estimular a procura por uma capacitação profissional ou educacional. 

Da população da Zona da Mata, 79,1% têm menos de sete anos de escolaridade, sendo enquadrados muitas vezes como analfabetos funcionais (aqueles que conseguem ler mas não interpretam o que leram).

Os poucos que conseguem alguma fonte de renda fora da atividade sucroalcooleira sobrevivem de bicos na construção civil - que mesmo somados aos benefícios sociais concedidos pelo Governo ainda conferem o status de pobreza e indigência para os moradores da Zona da Mata pernambucana.

É um paradoxo desanimador perceber que a força motriz que alavancou a maior fonte de riqueza do Estado desde o descobrimento do Brasil continua numa senzala imaginária, presa às correntes da própria ignorância e ao descaso da sociedade. 

Se nada for feito para dar um novo foco econômico a essa mão-de-obra, preparando-a para o dia em que as máquinas farão o seu trabalho, em breve haverá uma entressafra eterna e um futuro amargo.

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