Hora do rush, trânsito caótico em qualquer cidade do Brasil. Uma pessoa de classe média (que poderia ser você, leitor) espera, impacientemente numa imensa fila de automóveis, por uma oportunidade para deslocar-se alguns metros a frente com seu carro.
Um panfletário entrega uma propaganda inútil e a personagem rapidamente "passa a vista" e atira o papel pela janela. Ah, mas poderia ser uma embalagem de chiclete ou até o próprio chiclete, já mastigado. Não importa o lixo atirado e sim o ato de livrar-se dele da maneira errada.
Cenas como essa não são hipotéticas. As agressões ao meio ambiente (ou à sociedade dita civilizada) acontecem diariamente em qualquer lugar. Exemplifiquei ambientando a minha crítica no seio da classe média justamente para desmitificar a tese de que a falta de educação é coisa de pobre.
Pobres de todos nós, de qualquer classe, que não estamos sequer fazendo o nosso "dever de casa" nem em casa e tampouco na rua.
"jogar um papel pela janela não me torna tão responsável quanto uma grande empresa que fabrica toneladas de lixo todos os dias", poderia pensar o cidadão-contraventor. Ora, e se todos estivermos fazendo isso? será uma agressão de longo prazo, num trabalho de formiguinha.
Não estou nem querendo propor uma reciclagem ao pedaço de papel que um dia fez parte de uma floresta, mas alertar sobre um problema cuja responsabilidade é essencialmente civil na sua origem e estatal na sua cura: O destino errado que damos ao nosso lixo.
Os jornais mostraram, semana passada, um mutirão de limpeza que retirou um verdadeiro brexó de dentro do nosso Rio Capibaribe. Suas águas escuras abrigavam até os dejetos hi-tech de computadores e periféricos - itens que delimitam claramente o poder aquisitivo (quiçá intelectual) de seus antigos donos.
E mesmo assim, foram parar no fundo da lama, contaminando/incomodando nossos caranguejos e os mouses verdadeiros, também conhecidos por gabirús. E assim, uma simples ação isolada de catação de lixo no rio envolvendo estudantes conseguiu enfeitar as calçadas das pontes com toda aquela tranqueira.
Mas foi um mutirão pontual que expôs a ferida aberta, tomou as primeiras páginas do jornal e passou. No dia seguinte as mesmas páginas que denunciaram a situação emergencial do velho Capibaribe estavam embrulhando galinha no mercado e, posteriormente, poderiam até ter sido jogadas nele.
É fácil reclamar e citar que a gente joga o lixo no chão (ou no rio) porque isso aqui é o Brasil.
Por que ninguém respeita a faixa de pedestres? Porque estamos no Brasil.
Por que todo político não presta e continuamos votando errado? Porque estamos no Brasil.
As respostas estão erradas.
Para todos os questionamentos há apenas uma solução: começar a exercer a cidadania dentro de casa, no trabalho e a caminho dele.